Discurso do Centenário do Clube União Micaelense
Por Gustavo Moura
Solar da Graça · 13 de maio de 2011 — discurso proferido nas comemorações do centenário do Clube União Micaelense.
Numa festa de aniversário, aniversário muito especial como o que hoje aqui se comemora, as primeiras palavras devem ser de cumprimento ao aniversariante, o que faço com muito gosto. E não apenas na pessoa do seu Presidente que me privilegiou para falar nesta festa de centenário, mas a todos, que trabalharam e trabalham, dando o seu contributo, para que o Clube União Micaelense comemore um século de vida. Parabéns a todos.
Cumprida esta obrigação protocolar, quero explicar porque aceitei o convite do Dr. Manuel Arruda. Tenho dito muitas vezes que me considero um homem do futebol. Não porque alguma vez o tenha praticado, o que nunca sucedeu de uma forma séria, mas porque, nasci numa família de gente ligada ao futebol e muito em particular ao Clube União Micaelense. Cresci ouvindo falar de futebol e do União Micaelense; comecei a ver futebol muito criança, nem me lembro quando mas ainda no velho e há muito desaparecido Campo do Liceu. Durante mais de vinte anos fui redactor desportivo, primeiro no semanário “A Ilha”, depois no “Diário dos Açores” e finalmente no “Correio dos Açores” e, simultaneamente, durante os mesmos vinte anos, coordenador da informação desportiva do então “Emissor Regional dos Açores” hoje “RDP/Açores – Antena 1”.
A partir de 1975, já vão trinta e seis anos, deixei de ter responsabilidades directas na informação desportiva, mas nunca, até hoje, deixei de seguir o futebol, sempre com muito interesse e gosto, mas jamais com paixão e. nos últimos anos, com a amargura de ver o futebol regional ir por caminhos que a meu ver não serão os mais indicados e apropriados aos pequenos clubes como são os nossos. Mas sobre esta questão falaremos mais tarde, mesmo correndo o risco de introduzir um assunto menos agradável, numa sessão festiva como a que hoje aqui vivemos.
Minhas Senhoras e meus Senhores
Como ia dizendo, nasci numa Família desde sempre ligada ao União Micaelense, protagonistas da sua fundação. Meu Pai e dois tios meus, jogaram juntos e um destes, o Professor Augusto Moura Júnior, que dedicou toda a sua vida à educação física e ao desporto, foi, por mais de uma vez, treinador das equipas de futebol do União Micaelense. Alguns amigos íntimos da minha Família, assíduos frequentadores da minha casa nos tempos da minha infância e juventude, foram dirigentes de prestígio do União Micaelense e de entre eles recordo os Senhores Horácio Têves, Dr. Raul Benevides, Frederico Cabral, Dr. Carlos Arruda, António da Câmara e João de Viveiros Bettencourt e outros que seria fastidioso enumerar. Foi neste conjunto familiar e de amizades que cresci e aprendi a gostar do União Micaelense e do futebol.
E foi também com eles que aprendi ser o desporto, um dos mais válidos e eficazes meios para complementar a educação cívica e conservar a saúde, física e mental.
Primeiro educar, no entendimento mais abrangente do termo. Depois, competir no cumprimento da legenda Olímpica, mais alto, mais forte e mais longe. Porque é a educação, base de toda a evolução humana, que ensina a competir com lealdade, perder com dignidade e ser magnânimo e humilde no vencer. Certamente que a muitos de Vós que me ouvis, estas palavras soam a um lirismo ultrapassado, à evocação de tempos que já lá vão. Mas estão enganados. São actuais e, felizmente, resistem às mudanças a que assistimos transformando o desporto num espectáculo comercial, envolvendo fundos financeiros e interesses de vária ordem, elevadíssimos. Mas na sua mais pura essência, continua o desporto a ter como objectivo alcançar o triunfo, pessoal ou individual. Os caminhos para o conseguir é que mudaram e, na minha opinião, criando numa promiscuidade profundamente negativa para o autêntico significado do desporto.
E é contra essa promiscuidade que considero importante lutar para que o desporto amador, praticado apenas para melhorar a saúde física e mental e pelo prazer do jogo e da competição, não seja contaminado por interesses que adulteram a sua capacidade intrínseca de educar, de formar cidadãos conscientes numa sociedade mais fraterna e mais justa, que o desporto, nas suas mais variadas, formas contém.
Desporto como instrumento de formação cívica e promoção da saúde e desporto espectáculo, capaz de galvanizar multidões, com todo o cortejo de interesses que o estruturam, devem caminhar lado a lado, mas claramente separados. Cumprindo cada um a sua função, mas com fronteiras bem delimitadas.
Minhas Senhoras e meus Senhores,
Espero que compreendam esta minha reflexão, neste dia de festa, do centenário do Clube União Micaelense. Um século de esforço para manter activa uma colectividade desportiva, exigiu a muitas gerações de empenhados dirigentes, associados e praticantes não só esforço mas, também, muita dedicação, merecedores do nosso reconhecimento e louvor. E, no meu entender, também merecem que ao recordá-los se enfrente a realidade e não se esqueça o espírito com que fundaram o clube que hoje celebramos.
Os tempos mudaram. Mas os valores básicos nunca se alteram e resistem por mais profundas sejam as modificações impostas pelo decorrer da vida e das suas circunstâncias. E assim tem sido com o Clube União Micaelense que é hoje uma colectividade eclética, movimentando centenas de praticantes alguns dos quais levam o nome dos Açores nas suas camisolas pelo nosso País fora, num trabalho de promoção que nos traz um contributo que será tanto mais valioso quanto o grau de mérito alcançado.
Os clubes desportivos têm, também, e com responsabilidades, uma função social, para além da parte promocional da prática do desporto, que não pode ser menosprezada. E uma dessas funções foi desempenhada de forma particular nos anos vinte a sessenta do século passado, quando as provas de futebol entre as ilhas dos Açores eram, praticamente, a única forma de intercâmbio entre os açorianos.
E nesta área o Clube União Micaelense desempenhou uma acção importante com frequentes deslocações ao Faial e à Terceira, para a disputa do já desaparecido Torneio de Classificação dos Açores à Taça de Portugal até aos princípios dos anos setenta do século passado, a única prova de carácter açoriano que se disputava. Eram deslocações que davam direito a festivas recepções com banda de música e sessões de boas vindas com a presença das principais autoridades da ilha, e outras festas a que não faltavam as repetidas afirmações da amizade entre açorianos, que no ardor dos jogos nem sempre era muito bem tratada. E tudo isto, toda esta festa do futebol que a partir dos anos cinquenta passou também a ser do hóquei em patins, acontecia na Horta como em Angra do Heroísmo e aqui em Ponta Delgada. Apurado o vencedor açoriano era a eliminatória com o representante da Madeira, na grande maioria das vezes o Marítimo do Funchal, repetindo-se uma confraternização que esteve na base da criação do Grupo de Amizade Açores – Madeira, animado por Silva Júnior e Mota de Vasconcelos, ambos há muito já desaparecidos, tal como a associação com tão bons propósitos fundada mas que teve escassa actividade e curta duração.
E foi exactamente um dos Torneios de Classificação dos Açores à Taça de Portugal que proporcionou ao Clube União Micaelense cujo centenário hoje celebramos, o mais importante de todos os triunfos da sua principal equipa de futebol. Foi na época de 1961/1962 que o Clube União Micaelense ganhou sucessivamente o torneio distrital frente ao União Sportiva e ao Santa Clara, o Torneio Açoriano defrontando o Lusitânia e o Angustias e, depois, eliminando o Marítimo da Madeira, em dois jogos realizados em Ponta Delgada. Pela primeira vez, um clube de São Miguel representava as então ilhas adjacentes na Taça de Portugal, sendo eliminado por uma equipa da primeira divisão nacional, o Vitória de Guimarães.
Era presidente do Clube o Eng.º. António Clemente Pereira da Costa Santos e treinador o já falecido Henrique Ben David.
Minhas Senhoras e meus Senhores,
Não vou recordar a história centenária do Clube União Micaelense. Seria demasiado fastidioso numa sessão festiva como a que hoje aqui vivemos. Mas não quero deixar de recordar alguns dos seus fundadores e o espírito de serviço à sociedade que os animou.
Horácio Têves, Ricardo Montalverne de Sequeira, Aires Mariano da Silva, Jaime Gomes e Cláudio de Sousa Pereira são citados como fundadores deste União Micaelense num trabalho sobre o futebol nos Açores compilado pelo nosso conterrâneo Dr. Eduino Neves, professor liceal jubilado, há muito vivendo na cidade do Porto e do qual me socorro para alinhavar esta invocação.
Segundo o mesmo autor, o Clube União Micaelense teve a sua primeira sede no edifício que foi a Pensão Central e ali desenvolveu uma vasta acção social e desportiva na qual se distinguiu o Capitão Henrique Galvão, que mais tarde se viria a notabilizar como figura cimeira do Estado Novo para, depois, se tornar num dos seus maiores inimigos.
Tal como actualmente, o União Micaelense não se limitou à prática do futebol, marcando actividade destacada no voleibol, na ginástica e no basquetebol, práticas que, como tudo na vida, conheceram momentos de triunfo e épocas menos boas, mas graças à perseverança dos seus dirigentes e praticantes o caminho nunca foi interrompido, até hoje.
Mais do que recordar a vida do Clube União Micaelense, o que me preocupa hoje, aqui, ao falar na festa do seu centenário, é o apelo para que o desporto regional desempenhe cada vez melhor, com mais eficácia e apurado sentido dos valores, a sua função social, pedagógica, e que o Governo dos Açores, cujo apoio é insubstituível, olhe e apoie o desporto na sua vertente educativa, muito especialmente para os sectores mais jovens, abrindo a possibilidade da sua prática a camadas cada vez mais alargadas da mocidade açoriana, numa clara divisão entre o desporto como veiculo de formação física e cívica e o desporto espectáculo, profissionalizado, que poderá ser um veiculo de promoção, desde que não contamine e minimize a actividade puramente desportiva.
Ainda há dias, os jovens das escolas de futebol deste Clube União Micaelense, deram muito boa conta de si num torneio de nível nacional no continente, prova do seu valor, exigência de que lhe devem ser dadas condições de desenvolvimento das suas capacidades, que não devem ser limitadas por imperativos que tenham a ver com aspectos, a meu ver de menor relevância, nos objectivos de uma colectividade secular e eclética como é o Clube União Micaelense.
Minhas Senhoras e meus Senhores,
Antes de terminar gostaria de deixar um apelo aos dirigentes do Clube União Micaelense e, de certa forma, também ao Governo dos Açores. A função social do desporto é uma das traves da sociedade, o que traz muitas responsabilidades aos seus responsáveis. E não apenas pelas actividades dos clubes. Mas, também, porque envolve elevados montantes de dinheiros públicos, que são de todos nós porque saem dos impostos que pagamos, o que maximiza a responsabilidade de quem os gere.
A necessidade de apoio público, governamental, à actividade desportiva é indiscutível e fundamental. Mas a sua utilização tem de ser rigorosamente controlada. Não basta ter escolas para as crianças e os jovens. É preciso que essas escolas, e quantas mais existirem melhor, sejam dirigidas por técnicos com reconhecida formação e a sua actividade devidamente acompanhada.
Na fundação do Clube União Micaelense, há um século atrás, esteve um clube de jovens que gostavam da prática desportiva, o Esperança. Rapazes que se cotizavam para comprar a bola e cada um adquiria, lavava e mantinha em ordem o seu equipamento. Os tempos de agora são outros, mas esse espírito de amor ao futebol e à confraternização desportiva não se deve perder, deve ser estimulado, pois é ele que manteve vivo ao longo de um século, com melhores e piores momentos, o Clube União Micaelense, que hoje festejamos.
Tenho a perfeita consciência do que disse aqui hoje não terá agradado a muitos dos presentes. Mas não ficaria satisfeito comigo mesmo se não o dissesse, pois é o que penso sobre a actividade desportiva, hoje em dia na Região Autónoma dos Açores. Ao contrário do que possam pensar, alegram-me os triunfos das equipas açorianas. Fico satisfeito com as suas vitórias. Mas entendo que mais importante do que esses triunfos é manter uma gestão equilibrada, realista, dos nossos clubes para que sejam, na verdade, com autenticidade, instrumentos da educação da nossa juventude, factores da sua promoção cívica e social e utilizem com racionalidade os dinheiros públicos que recebem.
Os cem anos de vida do Clube União Micaelense encerram muitas e valiosas lições. E se o União Micaelense sobreviveu até agora, deve-se a um rol imenso de dedicações, sacrifícios pessoais e empenhamento, de muitas centenas de pessoas, a quem quero render aqui a minha homenagem. E faço-o com particular emoção, pois entre eles estão alguns familiares e amigos meus. É pensando em todos eles, desde o mais modesto colaborador até aos mais destacados dirigentes, que apelo a uma mais realista compreensão da actividade desportiva, como instrumento de formação social e cívica. Foi, há cem anos, o espírito da fundação do Clube União Micaelense. Fazemos votos para que os vindouros continuem a honrar esse espírito.
Dito o que preparei para aqui reflectir com Vª.Exª., peço licença para um apontamento final de ordem pessoal, que me é imposto por duas ordens de razões, a memória de um amigo que partiu e que viveu entusiasticamente o Clube União Micaelense que hoje celebramos e a satisfação de ver reconhecido o mérito de outro amigo, Graças a Deus ainda aqui entre nós, e que tive o privilégio de ter como meu colaborador, nas andanças jornalísticas em que andei metido.
Falo do Jorge Nascimento Cabral e do João de Brito Zeferino. Das suas qualidades pessoais e profissionais dispenso-me de as lembrar aqui, pois de todos nós são conhecidas.
Apenas quero deixar nesta festa do desporto uma palavra de congratulação pela decisão do Governo dos Açores de reconhecer os seus méritos, concedendo-lhes a Insígnia Autonómica, sem dúvida o mais prestigiado galardão cívico que um açoriano pode receber. Bem a merecem!
Muito obrigado.
